Comece no verão a preparar o seu inverno

Para que as pessoas com doenças respiratórias crónicas estejam mais protegidas nos meses de frio, devem começar no verão a investir em medidas de proteção e limpeza das vias aéreas, bem como a melhorar a sua capacidade física e tolerância ao exercício, através da reabilitação respiratória.

As doenças do aparelho respiratório têm uma elevada prevalência, sendo que em Portugal são responsáveis por cerca de 19% dos óbitos e a principal causa de internamento hospitalar. Estima-se que, em 2020 no mundo, as doenças respiratórias sejam responsáveis por cerca de 12 milhões de mortes anuais.

As doenças respiratórias são na sua maioria mais prevalentes nas faixas etárias mais elevadas, com maior incidência no sexo masculino, no entanto e devido às alterações marcadas nos hábitos tabágicos no sexo feminino, estas diferenças tendem a diminuir.

Podemos definir como doenças respiratórias crónicas, as doenças que, independentemente da sua gravidade e apesar de serem tratáveis, permanecem com manifestações dessas mesmas doenças. A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), a asma brônquica, as fibroses pulmonares e as bronquiectasias são as principais doenças respiratórias crónicas. No entanto, existem outras doenças que também são relevantes, nomeadamente a fibrose quística, a hipertensão pulmonar de várias causas, a Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono, as doenças neuromusculares e as doenças deformativas da parede torácica que conduzem a insuficiência respiratória e implicam muitas vezes a necessidade de utilização de oxigénio e mesmo de ventilação mecânica para que os doentes tenham uma boa qualidade de vida.

O frio é um irritante brônquico e, por isso, facilitador do agravamento das doenças respiratórias crónicas.  O muco, que tem como finalidade a fixação dos irritantes que invadem o aparelho respiratório de forma a que estes sejam expulsos, pela sua composição – proteínas, glúcidos (açúcares) – e à temperatura do organismo, também pode criar, se retido, as condições para a sua multiplicação dos vírus e bactérias que reteve, levando ao desenvolvimento das doenças infeciosas respiratórias virais e bacterianas.

Outro efeito do frio é provocar vasoconstrição, o que leva a um menor aporte de leucócitos e glóbulos brancos aos locais infetados, e por isso a uma diminuição na capacidade de defesa das vias aéreas.

Por este motivo, nos doentes respiratórios crónicos a adesão à terapêutica brônquica e a vacinação da gripe e das pneumonias deve ser efectuada conforme a prescrição. A limpeza das vias aéreas é outro cuidado a ter, de forma a não facilitar as infeções respiratórias.

Em Portugal os dados de incidência e prevalência de pneumonias são bastante preocupantes. Há mais de 150.000 casos por ano, que são causa de 40.000 internamentos e mais de 400.000 dias de internamento. Segundo os dados de 2015, 78% dos internamentos por pneumonia ocorreu em pessoas com mais de 65 anos.

Muitos dos óbitos hospitalares por pneumonia ocorrem nas primeiras horas ou dias após a chegada ao hospital, o que sugere atrasos no diagnóstico e na referenciação do doente.

De notar que os idosos muitas vezes apresentam sintomas gerais, como alteração do comportamento, letargia, sonolência, o que não leva a pensar nesta doença. Neste grupo etário, muitas vezes, as queixas respiratórias podem ser escassas e podem não apresentar febre.

Para além da correta manutenção da terapêutica brônquica prescrita pelo médico e a vacinação da gripe e das pneumonias, a reabilitação respiratória deve fazer parte integrante da terapêutica dos doentes respiratórios crónicos sintomáticos.

A Reabilitação Respiratória é uma componente fundamental no tratamento do doente respiratório crónico. Tem sido alvo de particular atenção pelos investigadores nos últimos 10 anos e é atualmente apontada como uma intervenção de 1ª linha no tratamento da DPOC, bem como em outras doenças respiratórias crónicas, propiciando diminuição dos sintomas, melhoria na funcionalidade, capacidade de exercício e qualidade de vida e na autonomia da gestão da doença.

Reabilitação Respiratória

Um programa de reabilitação respiratória tem como objetivos proporcionar a diminuição das incapacidades físicas e psicológicas causadas pela doença respiratória através da melhoria da aptidão física e mental, alteração de comportamentos de agravamento, promovendo a reintegração social e capacitando o doente para a gestão integrada da sua doença.

Os principais benefícios da reabilitação respiratória são a redução dos sintomas respiratórios de fadiga e dispneia, a reversão da ansiedade e depressão associados à doença respiratória, a melhoria da tolerância ao exercício com aumento da resistência ao esforço, a melhoria na habilidade para a realização das atividades da vida diária, a redução das agudizações, a redução do número de consultas não programadas e recurso ao Serviço de Urgência, a  redução do número de dias de hospitalizações, a  diminuição dos custos diretos e indiretos relacionados com a saúde e uma melhor integração familiar e social.

Um programa de reabilitação respiratória assenta em três pilares: controlo clínico, ensino e treino de exercício.

A reabilitação respiratória deverá ter o suporte técnico de uma equipa interdisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e terapeutas ocupacionais.

O exemplo do AIR CARE CENTRE, Centro de Reabilitação Respiratória da Linde tem de ser multiplicado para chegar a um número significativo de doentes respiratórios crónicos com os evidentes benefícios daí decorrentes.

A Direção Geral de Saúde aponta para a necessidade de expandir a espirometria (função pulmonar) à população para avaliação funcional respiratória e a reabilitação respiratória de proximidade abarcando os doentes respiratórios crónicos sintomáticos, que dela necessitem.

Hoje, em Portugal, só um pequeno número de doentes respiratórios crónicos é privilegiado ao ter acesso a um tratamento global com Programa de Reabilitação incluído. Torna-se pois premente a abertura de Centros de Reabilitação Respiratória de proximidade, que possam dar respostas às necessidades do país.

 

Dr. António Carvalheira Santos, chefe de Serviço de Pneumologia do Hospital Pulido Valente