Das consultas à distância ao controlo de doenças crónicas. A telessaúde está aí

No âmbito do simpósio Telehealth for Chronic Diseases: Integrated Patient-centric Solutions, que teve lugar no 27º Congresso da EAHM – European Association of Hospital Managers, o Diário de Notícias (DN) realizou uma reportagem sobte Telessaúde, no qual partilhou o testemunho de uma doente com insuficiência cardíaca que é acompanhada no recurso à telessaúde. Neste artigo, o DN explora a maneira como a telessaúde se está a implementar em Portugal e quais os desafios que esta nova tecnologia terá de superar para ser o braço direito do SNS.

Desde que recebeu o diagnóstico de insuficiência cardíaca, Maria Celeste deixou “de viver a 200% para passar a viver a 50%”. Uma mudança violenta para alguém que “pensava que era a supermulher”. Teve alguns sustos, passou por vários internamentos. Chegou a dormir com a porta de casa destrancada, com medo de se sentir mal durante a noite. No final do ano passado, o médico que a acompanha no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, propôs-lhe que integrasse um projeto de telemonitorização, que tem vindo a ajudá-la a aprender a viver com a doença. “Ainda não foi preciso, mas, se não me sentir bem ou se os valores justificarem, encaminham-me para o hospital. Agora sinto-me um pouco mais tranquila, e não vou tantas vezes ao médico. É como se tivesse uma enfermeira a monitorizar-me diariamente. E há um serviço de apoio 24 horas por dia”, afirma, destacando que, como vive numa aldeia perto de Mafra, este sistema evita muitas deslocações a Lisboa.

Telemonitorização em oito hospitais públicos

A telemonitorização – que neste ano está a ser desenvolvida em oito hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – é uma das subáreas da telessaúde, um tema em discussão no simpósio Telehealth for Chronic Diseases: Integrated Patient-centric Solutions, evento integrado no 27.º Congresso da EAHM – European Association of Hospital Managers, que decorreu na sexta-feira no Centro de Congressos do Estoril.

“A implementação da telessaúde está a avançar a um ritmo acelerado e em praticamente todo o território nacional”, adianta ao DN Micaela Monteiro, diretora do Centro Nacional de TeleSaúde (CNTS), que está sob a responsabilidade dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS).

O recurso às tecnologias da informação e da comunicação está a mudar a forma como se presta cuidados de saúde no país. “Através da telessaúde é possível ultrapassar barreiras geográficas, facilitar o acesso a serviços, ter um acompanhamento mais continuado e articulado entre os diferentes níveis de cuidados. Já não é necessário partilhar o mesmo espaço físico para receber cuidados de saúde. Não é apenas mais cómodo para o utente e as famílias, mas também ajuda a reduzir custos em deslocações ou através de uma organização mais eficiente dos recursos disponíveis”, sublinha Micaela Monteiro.

Teresa Magalhães, investigadora nas áreas de sistemas de informação na saúde e responsável pela implementação do primeiro programa integrado de telemonitorização da insuficiência cardíaca no Hospital de Santa Maria, destaca as vantagens desta ferramenta nas doenças crónicas: “Quando atuamos de forma precoce na agudização da doença, evitamos gastos desnecessários com internamentos e idas às urgências. Mas isto não pode ser visto só numa perspetiva económica. Damos mais qualidade de vida aos doentes e reduzimos a mortalidade.” Desta forma, prossegue, o paciente torna-se mais autónomo, aprendendo a lidar melhor com a sua doença, já que passa a reconhecer os sinais.

Teleconsultas em tempo real

Atualmente, exemplifica a diretora do CNTS, existem “teleconsultas em tempo real, em que profissionais e utentes se ligam através de videochamadas; e teleconsultas em tempo diferido, em que, por exemplo, uma imagem de uma lesão cutânea “viaja” por via digital para o especialista no hospital para uma priorização dos casos mais urgentes ou mesmo para resolução das situações menos graves através de recomendações que ajudam o médico de família a tomar as melhores decisões”. Já “no centro de contacto do SNS, SNS 24, os enfermeiros todos os meses atendem em média mais de cem mil chamadas de utentes com dúvidas relativamente a questões de saúde – o que faz deste provavelmente o maior serviço de telessaúde em Portugal”.

Em 2017, registaram-se 28 448 teleconsultas em 18 unidades de saúde em Portugal, de especialidades como dermatologia, cardiologia, cardiologia pediátrica, nefrologia, medicina física e de reabilitação. As consultas de dermatologia, por exemplo, envolvem 24 unidades hospitalares, das quais 14 são centros hospitalares. Nestas consultas, geralmente o doente e o médico de família estão no centro de saúde e o dermatologista está no hospital, que pode ser a dezenas de quilómetros de distância. “Neste momento, o que é preciso é desenvolver a teleconsulta sem intermediário, médico-doente”, sugere Teresa Magalhães.

Embora considere que a telessaúde pode ser um forte aliado do SNS, Teresa Magalhães reconhece que “a falta de literacia na população mais envelhecida é uma barreira” à sua implementação, pelo que é preciso “o envolvimento dos profissionais no ensino aos doentes da sua condição de doença e no que podem beneficiar com este suporte tecnológico”.

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