Sabe o que é a tele-saúde?

A telemonitorização pode reduzir em 83% o risco de o doente ser hospitalizado ou morrer. Falámos com Dulce Brito responsável por este programa no centro Hospitalar de Lisboa Norte.

Um estudo alemão revela que a telemonitorização de doentes com insuficiência cardíaca reduziu a percentagem de dias perdidos em internamentos hospitalares não planeados e até mortalidade por todas as causas. O estudo TIM-HF2 foi publicado na revista científica The Lancet e que foi apresentado no IX Congresso Novas Fronteiras em Medicina Cardiovascular em fevereiro.

Este estudo revela que a gestão remota dos doentes, ou seja, a transmissão diária de sinais vitais para um centro de telemedicina, permitia uma comunicação direta entre o centro de telemedicina, o cardiologista e o clínico geral, todos envolvidos no tratamento. De que forma? Os doentes receberam também um telemóvel para entrar em contacto com o centro de telemedicina em caso de emergência e também foram acompanhados por entrevistas telefónicas mensais.

O estudo TIM-HF2 testou a intervenção em 1.538 doentes em vários centros na Alemanha que foram internados num hospital por piorar a IC nos últimos 12 meses. A professora Dulce Brito, médica cardiologista, é a coordenadora do Programa de Insuficiência cardíaca e Telemonitorização do centro Hospitalar de Lisboa Norte e explica de que forma esta telemonitorização pode ser eficaz. E ainda como funciona este sistema em Portugal.

Como funciona a telemonitorização?
O termo telemonitorização é vasto mas na sua essência implica a monitorização à distância de determinados parâmetros ou “sinais” biológicos que permitem a vigilância clínica do doente. Esses sinais (por exemplo, a frequência e o ritmo cardíacos, a pressão arterial, a temperatura, a percentagem de oxigénio no sangue, o peso corporal, eventualmente outros com importância para a doença que está a ser vigiada) são registados periodicamente pelo doente e são recebidos automaticamente num centro de triagem onde profissionais de saúde supervisionam os dados recebidos.

Quando os dados relativos às medições que estão a ser monitorizadas se encontram “fora” dos limites pré-definidos como os adequados é gerado um “alerta”, e o centro de triagem contacta o doente para averiguar a realidade da situação. Se tal “alerta” é confirmado, a equipa médica é contactada de imediato, estabelece novo contacto com o doente e atua em conformidade. Essa atuação pode incluir apenas ajuste no tratamento, marcação imediata de consulta ou mesmo observação em Serviço de Urgência.

Embora possam existir diferenças em relação ao modo de funcionamento dos vários programas de telemonitorização, na sua essência todos implicam o envio dos dados por parte dos doentes, o seu recebimento e supervisão por profissionais de saúde, a sua interpretação e uma “resposta” aos mesmos, adequada à situação clínica. E estes vários elos da cadeia de telemonitorização têm que funcionar interrelacionados.

Quais são as vantagens?
As vantagens são múltiplas: proximidade entre o doente e a equipa de profissionais de saúde, ultrapassando-se a barreira da distância geográfica; vigilância constante da situação clínica, permitindo a atuação médica imediata em caso de suspeita de agravamento e orientação do doente na cadeia de cuidados de saúde; evitar idas aos serviços de urgência, por vezes desnecessárias; redução do número de internamentos hospitalares pela deteção atempada de sinais de “alarme” e tomada das medidas terapêuticas adequadas dirigidas. A qualidade de vida do doente melhora e, adicionalmente, sente-se mais acompanhado por estar a ser vigiado medicamente de forma continuada. Claro que é nas doenças crónicas e em risco de descompensação, muitas vezes com internamentos hospitalares repetidos, que por vezes as vantagens são mais evidentes. Dois exemplos são a doença pulmonar crónica e a insuficiência cardíaca.

O que demonstra o estudo TIM-HF2?
O estudo TIM-HF2 incluiu mais de 1.500 doentes com insuficiência cardíaca e demonstrou que o seguimento com telemonitorização não invasiva durante 12 meses diminuiu a mortalidade por qualquer causa e diminuiu o número de “dias perdidos” devido a hospitalizações ou por morte. Por outras palavras, mantiveram-se os doentes mais tempo fora do hospital e com menor mortalidade, o que de facto é um dos objetivos máximos do seguimento destes doentes.

Quais são os resultados mais importantes?
Os resultados mais importantes deste estudo passam pela prova da exequibilidade da monitorização para um grande número de doentes e pelos benefícios que demonstrou nesta população ao nível da redução de dias perdidos por internamento hospitalar ou mortalidade. Outro resultado preponderante deste estudo foi a melhor caracterização da população-alvo de doentes que mais beneficia deste tipo de monitorização. Como todas as terapêuticas, estas não devem ser prescritas de forma indiscriminada para todos os doentes. Deve ser identificado o subgrupo de doentes mais vulnerável e que mais beneficia deste tipo de intervenção.

Quantos doentes têm no projeto de telemonitorização de doentes com insuficiência cardíaca que coordena no Centro Hospitalar de Lisboa Norte?
Actualmente estão 26 doentes com insuficiência cardíaca crónica a ser seguidos em programa de telemonitorização.

Dizem que este programa “decorre com bastante sucesso”. Podia dar exemplos?
Nos doentes com insuficiência cardíaca crónica, a telemonitorização associada a um programa de seguimento estruturado permitiu reduzir em 83% o risco de o doente ser hospitalizado ou morrer por qualquer causa, quando em comparação com os doentes que eram seguidos antes da implementação deste programa. Ao longo de um período médio de 10 meses de seguimento, são necessários apenas dois doentes neste seguimento com telemonitorização para prevenir uma morte ou hospitalização. Estes resultados são bastante significativos e a serem transpostos para o universo de doentes com esta patologia, a telemonitorização, nos moldes em que o nosso programa a está a efectuar, poderia controlar estes doentes de forma mais eficaz em ambulatório, evitando assim o internamento hospitalar e morte de muitos doentes.

Saiba mais em: https://bit.ly/2VWrTu8